quinta-feira, 19 de junho de 2008

HISTÓRIA DOS PETRALHAS




Nossa história começa com a família do idiota। Neto por parte de mãe de um casal que pertenceu ao Partido Comunista ainda na ilegalidade, o nosso herói cresce em um ambiente onde quanto mais à esquerda, melhor. Seu pai não era muito chegado a discussões políticas, o que não o impediu de ser preso pela ditadura, passar a noite na cadeia, ser interrogado e depois solto sem que nada acontecesse. Foi suficiente, no entanto, para que tanto pai quanto filho odiassem os militares. Uma das frases que o idiota, ainda na adolescência, ouve de seu pai e que ajuda a formar sua convicção política foi “Toda propriedade é um roubo.” Original, não?Em 1989, o idiota, então com 14 aninhos, assiste a discursos do candidato operário à presidência. Não há como negar que o cidadão era carismático. O idiota é então convencido de que aquele é o caminho. Sem nada questionar, pega sua bandeira com a estrela vermelha, coloca em sua bicicleta e sai pelas ruas de Brasília em campanha, “sem medo de ser feliz, quero ver chegar!” Grande derrota, primeira decepção política de nosso herói. Mas ele iria se vingar!




Em 1992, secundarista, cabeludo, alienado e com 17 anos, nosso herói faz história। Junto com outros imbecis de mesmo QI, o idiota se veste de preto e vai pedir o impeachment do candidato vencedor nas eleições. Motivo? Parece que tinha um esquema de corrupção, um irmão enciumado dedurou tudo, um motorista (ah sim, pobre é sempre bonzinho!) confirmou, tinha um carro velho no negócio, uma capa da Veja com umas cascatas, e portanto tudo fazia sentido. O que ele estava fazendo estava certo? Não importa! Ele desafiou muita gente poderosa? Não importa! Ele teve direito de defesa? Não importa! A turma que o condenou é essa mesma que hoje rouba vinte vezes mais? Não importa! O que importa mesmo é que somos nós contra eles, e nós temos que dar o troco. Camisa preta, Esplanada, impeachment, vitória! Pela moralidade!O idiota fica um pouquinho confuso quando o partido que apoiou o impeachment se recusa a participar do governo que surge, isolando a única com coragem de fazê-lo, Luiza Erundina. Eles não queriam isso? O idiota não entende.... De qualquer forma, o governo formado consegue, em dois anos, acabar com a inflação. O ministro da fazenda é eleito e reeleito em primeiro turno, contra o candidato do idiota. Parece que ele está fazendo um bom trabalho, nada demais, mas está funcionando. “Não importa!”- grita mais uma vez nosso herói - “Ele comprou votos para a reeleição, tem corrupção no governo dele, precisamos de ética na política!”Na eleição de 2002, o idiota começa a perceber que não fará muita diferença um ou outro, pois seu candidato praticamente assumiu que iria continuar tudo como antes. “Pelo menos eles são do bem, são legais, vão cuidar do social ”- pensa o idiota. Nosso herói, agora com 27 anos, formado e com mestrado em engenharia, não se permite mais ilusões. É isso mesmo, nada vai mudar muito, é essa porcaria e pronto.




Mas eis que nosso herói consegue uma bolsa de estudos de doutorado nos EUA (sim, ele era idiota político, mas sabia brincar com os números)। Chegando nos EUA, o idiota começa a perceber que existem pessoas lá que tem a coragem de se dizer de direita! "Que afronta! Todos sabemos do que a direita é capaz! Como esses americanos são imbecis," pensa o idiota. "Primeiro o Bush rouba uma eleição e depois eles reelegem o cara mesmo assim! Um bando de retardados, espertos somos nós que elegemos o Lula." O idiota começa então a tentar entender isso. Na biblioteca existem livros de direita e de esquerda. Ele lê ambas as correntes políticas. O jornal apresenta colunas dos partidários de ambas as visões políticas. Primeiramente, o idiota fica decepcionado com seus heróis. Não é que eles estão errados, é só que eles não sabem argumentar, pois se eles são de esquerda só podem estar certos. Mas aí vem o grande baque.....Não são apenas eles que estão errados. O idiota, que se achava o cara mais esperto do mundo, inteligente, articulado, politizado, preocupado com os problemas, esteve todo esse tempo do lado errado. Que vergonha! “Como pude ser tão estúpido?”- pensa nosso herói. Os sinais estavam por toda parte, ele que não quis ver. Como encarar agora todos aqueles que acusava de direitistas, achando que isso era um debate? Começa pedindo desculpas a alguns, ficando calado, procurando mais informações. Mas ainda faltava o grande embate: sua família.




Se dizer de direita numa família de comunistas é um pouco pior do que assumir que é gay numa família de machistas. A saída do armário não foi fácil, mas sua família acabou entendendo. “Ele está maluco”, “Foi doutrinado”, “Isso passa”, etc. Alguns tentaram salvar nosso herói desse caminho: “Calma, meu filho, isso é apenas uma fase. Eu acho isso muito elitista, você deveria pensar no povo. E a miséria do país, quem que vai lutar para resolvê-la se não a esquerda?” Aos poucos, foram cedendo, conformados com a presença daquele maluco, como um tio doido que só precisamos encontrar de vez em quando.Mas a vergonha de ter sido idiota por tanto tempo ainda incomodava, especialmente quando encontrava amigos que tinham tido paciência com ele na sua época de imbecilidade, paciência essa nem sempre retribuída pelo nosso herói. Mas sua vida fica mais leve quando lê o livro “O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano,” recomendado por um desses amigos. Na melhor parte do livro, os autores colocam eles mesmos como idiotas, com citações da sua época de juventude e imbecilidade. Nem Mario Vargas Llosa, que escreve o prefácio e é pai de um dos autores, escapa. Sua idiotice também está registrada. Concluem então: O problema não é ter sido idiota e sim continuar sendo. O nosso querido idiota fica mais tranquilo. Agora só falta explicar pros outros idiotas.....

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